Have you ever seen the lights?
Tim Festival 2007. A banda entrou no palco com três horas de atraso, numa madrugada de segunda-feira. Isso significa: show curto, mas não tinha mais jeito. Algumas bandas tem poder sobre as massas,
The Killers, mesmo com uma carreira tão curta, é uma delas. E o fator de poder nesse caso são as músicas e depois integrantes. No palco, luzes natalinas, neon, arranjos, pequenas árvores secas, flores, caixotes e Sam’s Town ao fundo, escrito em lâmpadas incandescentes. Kitsch à primeira vista, eu sei. Mas tem um significado:
Sam's Town.

Sam's Town é o tema do show inteiro e a música dispensa comentários, introdução perfeita para um show, com fotos e vídeos sendo mostrados no telão que remetiam à atmosfera que tem o cd e os videoclipes. A segunda música foi Shadowplay, do Joy Division, que faz parte da trilha do filme Control, cinebiografia do vocalista Ian Curtis. Aí veio Enterlude, cantada em coro pelo público e assim como no cd, When You Were Young foi a próxima, seguida de Somebody Told Me. Essa sequência levantou até os mais mortos de cansaço depois da maratona de quase 9 horas (já era mais de 4h da manhã). E como foi bom ouvir Jenny, talvez uma das poucas músicas que ao vivo consegue tomar uma outra forma. Mas nada se comparou a Smile Like You Mean It e o teclado genial que ela tem. A intro dela ao vivo é daquelas que te deixa em outro estado de espírito. Smile é a música de Hot Fuss, sem dúvida. E foi arrepiante. Aí veio Bling e Read My Mind, seguida de Uncle Jonny que ao vivo caiu muito bem. Umas das mais esperadas, Mr. Brightside fez todo mundo pular e cantar. Não teve uma alma que não cantou Mr. Brightside. A ótima Bones foi a próxima e depois, For Reasons Unknown. E pra fechar, All These Things That I've Done.
The Killers ao vivo não deixa de ser uma experiência marcante. Excelente performance no palco, carisma e interação com o público, show empolgante, dançante, que te deixa com um “smile” bem grande estampado na cara. Eu poderia parar por aqui, dizer que o show foi o melhor que vi até hoje e que eles são uma das maiores revelações dos últimos 15 anos. Mas e daí? Seria uma cova rasa, daquelas que você sai sem esforço. Então vou cavar.
Com certeza quem já viu The Killers ao vivo começa a ter uma outra visão sobre a banda. Tudo culpa deles.
Hot Fuss, primeiro cd, é uma obra-prima para uma estréia. Não sou eu que estou falando isso, é a história e como eles foram recebidos em 2004. E Sam's Town é um disco excelente, como disse o próprio Brandon, talvez um dos melhores discos dos últimos 20 anos. Não é questão de se gabar nem nada, se colocar num pedestal. É questão de ter consciência daquilo que se faz e principalmente olhar ao redor hoje no mundo do rock, ou indie rock, como preferir. O disco mantém uma linha de concordância, tem introdução, tem meio e tem fim, assim como Hot Fuss. Tem algo mais, é substancioso, fala por si. Não são só músicas jogadas num cd, é algo bem mais refinado. Você consegue perceber que ali foram empregadas horas e horas de trabalho, pesquisas, experimentos. E quantas bandas se preocupam com isso hoje?
Penso que Hot Fuss foi mais fácil de digerir do que Sam’s Town, talvez pelo descompromisso e músicas mais comerciais e agitadas como Mr. Brightside e Somebody Told Me, aliada a agradável novidade que foi a banda em 2004. E convenhamos, estávamos carente de boas bandas e músicas empolgantes como essas, pois a mesmice tomava conta do meu playlist, pelo que eu lembre. E eu fiquei com a impressão de que Sam’s Town demorou para ser aceito. Confesso que foi assim comigo e foi assim com quem conversei a respeito do cd.
Mas por que? Porque Sam's Town foi além, é uma agradável
evolução. E você sabe, tudo que é novo incomoda e tende a atrapalhar nossas mentes. E esse é o grande trunfo do segundo cd. Algo como se a banda dissesse: “você está me entendendo?”. E você: “espera um pouco, estou tentando...”. E quando isso acontece, saímos do campo da música somente e entramos no campo do sentimento, ou seja, sentir as músicas além de ouvi-lás. Aconteceu no primeiro cd, mas acontece em doses dignas de overdose no segundo.
Alguns críticos condenaram Sam’s Town, porque simplesmente não tiveram a capacidade de entender isso. Para eles, bastou dizer que a banda, no segundo cd, esqueceu do pop e quem sabe do descompromisso de Hot Fuss, deixando de lado o tom mais despojado, tentando entrar no campo da maturidade, da segurança, com letras mais fortes e tons mais marcantes, querendo transparecer o que eles na verdade ainda não são. Palavras deles. E pra ajudar, o New York Times em sua resenha sobre o cd insinuou que Sam’s Town quis ser o
Joshua Tree dessa geração, o aclamado álbum do
U2.
Por que duvidar tanto da evolução em Sam’s Town? Será que eles esperavam mais do mesmo? Repito, Hot Fuss é obra-prima para uma estréia, se Hot Fuss tem um erro, eu ainda não descobri. Mas Sam’s Town, para quem ouviu, buscou entender e foi ao show, fica claro que parte da crítica estava enganada. Enganada porque principalmente a experiência ao vivo de Sam’s Town é bem mais marcante, mais profunda e, consequentemente, mais embaixo. A cova não é rasa, nesse caso. Você começa a entender melhor quem é quem no The Killers a partir de Sam’s Town.
Acabei lendo muitas críticas sobre o show deles, e uma me chamou a atenção. Uma comparação entre atitudes, a banda num todo, com
Queen na época de
Freddie Mercury. Procurei referências da própria banda e por acaso achei uma
entrevista recente do Brandon no blog do
SobreMusica.com.br:
"SobreMusica: Você disse que não está satisfeito, mas como você percebe sua evolução ao longo do tempo? Brandon: "Eu queria ser mais confiante, mas acho que estou melhorando, eu tenho assistido... Eu vi alguns trechos das apresentações em Glastonbury e em um show que fizemos na Noruega... Eu acho que ainda preciso melhorar, não me sinto muito confiante. Eu ainda não pareço com o Freddie Mercury (risos)."Assisti o show deles em Glastonbury pelo YouTube e claro, ao vivo no Tim. Essas palavras do Brandon soam mais como quem quer esconder o jogo, do que qualquer outra coisa. Para liderar massas, como falei no início, precisa ter confiança em si mesmo. Freddie Mercury fazia isso com maestria, como ninguém nunca o fez, basta assistir aos shows épicos de Queen, é algo sobrenatural. E certas semelhanças, mesmo que sejam propositais com Queen, são boas.
Ouça My List. Uma das melhores de Sam’s Town, My List é quase um revival de Queen. Mas não só ela, Bling, Bones e Why Do I Keep Counting? também são temperadas assim. E tudo isso é perceptível. O primeiro cd tem mais cara de
The Cure com pitadas de
New Order do que qualquer outra coisa, e parte disso ainda está presente no segundo cd, com For Reasons Unknown, When You Were Young e Read My Mind. Mas escute Sam’s Town hoje do começo ao fim. Vá em algum show dos Killers hoje e veja como a banda e Brandon se comportam, como é a interação deles com o público. Quando ele invocou Bling e Bones no palco do Tim Festival, tudo ficou mais claro.
Se Brandon se espelha hoje em Freddie Mercury, um pouco na aparência ou vestimenta, mas principalmente pelo papel que exerce como vocalista e líder no palco, o que falar de Dave Keuning? Brian May em pessoa. Se isso é ruim? Pelo contrário, pelo menos pra mim, traz mais confiança no trabalho deles. E não vejo isso como se fosse uma atitude poser, ou podendo soar como algo plagiado. Ser poser ou ser uma cópia descarada é uma coisa, utilizar das bases e referências de bandas consagradas, tirando os pontos positivos para fazer música de qualidade, mantendo um estilo próprio desde o início, é outra. Só ouvindo os dois cds para tirar qualquer dúvida, se você ainda tiver.
Sawdust, compilação com b-sides da banda, está saindo agora. A melhor de Sawdust eu ainda não sei, porque não ouvi todas.
Tranquilize me pareceu promissora (em parceria com
Lou Reed), mas
Where the White Boys Dance é digna demais para ser um b-side, é uma pena muito grande não estar em Sam's Town. Sorte dos japoneses, pois veio como bônus no cd lançado por lá e ao que me parece, no single de When You Were Young. Prefiro pensar que fizeram isso para presentear as poucas almas que desfrutarão dessa música.
Sobre o terceiro cd, acredito que só no final de 2009. Mas se eles andarem na mesma linha em que eles estão, será mais um disco excelente. Se conseguirem superar, bom, nesse caso as projeções irão ficar na minha mente, por enquanto. Se hoje já vejo sinais de bons tempos com o trabalho e as músicas deles, no futuro, espere pela glória. E por tudo até hoje e pelo caminho que estão seguindo, será mais do que merecido.
Foto: DivulgaçãoIlustração: Headwires