
Segundo volume da saga do maldito
hype. Será que chegarei numa conclusão final? Provavelmente, talvez (!). Minha visão inicial sobre o mesmo já está cravada aqui, mas o final é mais problemático. E aí entra
Zeca Camargo e Bonde do Rolê.
Leio o blog do Zeca desde o início e um post em agosto deste ano me chamou atenção:
“Bonde do Rolê. Sério”. Primeira coisa que pensei foi
“como assim, sério?”. Zeca Camargo e Bonde do Rolê, que combinação é essa? Estranho? Sim se você pensar que Zeca é um bom jornalista multimídia que tem uma bagagem cultural e musical das mais vastas deste país, alguém que acumulou centenas de entrevistas com personagens do mundo da música ao longo desses tantos anos. Ou seja, raramente você encontrará alguém que entenda de tudo um pouco (e às vezes muito) sobre estilos, bandas, cantores, canções, culturas e afins como este cara entende.
Neste post em específico ele cita que o brasileiro tem mania de diminuir ou desconfiar de um produto musical que fez sucesso primeiro lá fora, para depois desembarcar por aqui. Aconteceu isso com
CSS e com
Bonde do Rolê, duas bandas que hoje possuem o maior hype lá fora.
Vou reproduzir aqui algumas partes para que o entendimento fique mais fácil:
”(...) Mas o fato é que fui vencido na minha resistência - e resolvi superar todos esses preconceitos ao me deparar, bem na entrada de uma loja de música que eu respeito, em Londres, com o EP de “Office boy” (...)”
”(...) A primeira sensação veio sem pensar: o mundo está de cabeça para baixo. Era isso mesmo que eu estava vendo? Era. Resolvi comprar o EP - vinil, só para lembrar de quando eu era mesmo um DJ (para ser honesto, eu nem tinha opção: só encontrei esse lançamento nesse formato). E, aos poucos, o mundo foi voltando a fazer sentido. (...)”
”(...) Ah, mas gostar de Bonde do Rolê? Para que perder tempo com “Office boy” - ou mesmo com o resto do disco deles? (...)”Assim como eu fui vencido pela minha resistência com
Amy Winehouse, ele foi vencido pelo Bonde do Rolê. E quem “indicou” o EP foi a loja em Londres que ele mais respeita.

Vi o show do Bonde no
Skol Beats 2007. Estava fazendo a cobertura e na sala de imprensa (e que sala!) na sexta-feira não se falava em outra coisa a não ser:
“não esquece que já vai começar o show do Bonde!”, isso entre jornalistas do
G1, UOL, Terra, RRAURL, Psyte e outros.
Até então, assim como ocorreu com Amy Winehouse, eu nunca tinha ouvido nada do Bonde, apenas lido e já sabia que eles tinham um hype poderoso. E com tantos comentários acabei virando pro Samuel e falei:
“cara, a gente não pode perder esse show”. É o hype fazendo efeito, de novo.
Saímos da sala de imprensa, o show já havia começado e caminhamos até o Live Stage. De longe já ouvi o riff de
Blue Monday do New Order e comentei: “começou bem!”. Cada vez chegando mais perto do palco, eles iam aumentando. Mas foi só. E só não foi triste, porque chegou a ser engraçado. Acompanhamos 45 minutos do show, que foi suficiente para tirar algumas conclusões. Abaixo segue o que escrevi sobre eles na matéria que fizemos na época, maio de 2007:
”(...) Bonde do Rolê, pra animar a noite
Talvez a apresentação menos técnica da noite, porém uma das mais divertidas. Se você também nunca ouviu Bonde do Rolê, certamente já deve ter ouvido falar. Mas não espere que as músicas deles toquem nas rádios, nem mesmo que eles apareçam no Domingão do Faustão. A banda, formada por três curitibanos (Rodrigo Gorky, Pedro D'Eyrot e a vocalista Marina Ribatski) possui um repertório cheio: cheio de palavrões e rimas inusitadas, um estilo que lembra Mamonas Assassinas, mas sem toda aquela fantasia que eles tinham.
Com uma mistura de samplers do rock dos anos 80 e batidas de funk carioca, a banda agitou o público no Live Stage com seus sucessos Melô do Tabaco, Solta o Frango, Ventuinha Mentirosa, entre outros. Um projeto despretensioso, que está tomando forma no mundo todo com a ajuda do DJ americano Diplo. A banda foi eleita pela revista Rolling Stone uma das 10 bandas para se ligar no mundo. Será? (...)”
Eis a pergunta: será? Confesso que errei, o correto era: por quê? Por qual motivo devo se ligar no Bonde do Rolê,
Rolling Stone? O que vou perder? São dançantes? Sim, mas qual funk não é? Possuem letras hilárias? Sim, mas não tem conteúdo algum. Sou chato? Não! No show foi divertido, aliás era visível que todos davam risada com as letras, mas porque devo comprar o cd (ou vinil, como o Zeca fez) e escutar isso em casa, no meu MP3 ou no carro?
”Por causa do hype, Thiago” – responde a Rolling Stone.
”Mas eu não quero ouvir isso, cara-pálida!” – enfatiza Thiago.
”Não interessa, você não entende nada de música, eles são o futuro, ouve aí e fica na boa” – grita a Rolling Stone.
Lembra do primeiro post que citei como a mídia empurra essas coisas goela abaixo como sendo o “santo graal” da música? Olha a Rolling Stone aí fazendo a parte dela, assim como a loja de respeito do Zeca fez com o próprio Bonde. O fato é que eles ao vivo num festival, todo mundo leva numa boa. É quase como foi
Spank Rock no Tim Festival 2007, muita gente dançou e aplaudiu, mas no final todo mundo saiu falando “que bosta de Spank Rock!”.
Tem como negar o hype do Bonde do Rolê?
Não. Agora, tem como imaginar um gringo tentando entender uma letra assim:
“a gente somos lindo, a gente somos inteligente, a gente somos o trio mais foda, a gente somos delinqüente, alegria da moçada, da perua à favelada, nosso som é fantasia pra mamãe, vovó, titia, rolê, rolê, rolê, solta o frango e vem com a gente”.
”Ow genial!”. Será que é isso que o gringo pensa, ou na verdade ele nem pensa? Será que foi isso que Zeca pensou ao dizer:
”(...) Mas eu vou sugerir aqui que você escute sim - e goste - do Bonde do Rolê. Não são melhores do que meia dúzia de pequenos delírios recentes das pistas de dança (como Junior Senior, por exemplo), nem piores do que a maior parte do horário das 18h às 19h nas rádios comerciais. (...)”Zeca foi vencido pelo hype do Bonde do Rolê? Assim como muita gente foi e ainda vai ser? Porque, para este que escreve, o Bonde não vale muita coisa, quase nada. Aliás, o show é tão descompassado que há erros técnicos de mixagem nas músicas, além de diálogos entre os três integrantes que realmente não interessa ao público, típicas piadinhas internas.
Mas há uma verdade que remete ao hype e que Zeca deixou explícita no blog dele, segue abaixo:
”(...) Quem, como eu, chega atrasado à “descoberta” tem poucas opções. Se falar que gosta, à essa altura, vão dizer que é porque agora que a banda faz sucesso lá fora, você está pegando uma carona na “modinha”. Se ignorar, vai ser mais um mané que se junta ao enorme time de programadores de FMs convencionais que simplesmente desejariam que a banda nunca tivesse existido assim eles não teriam de se lembrar, a cada playlist que fecham, que eles estão deixando de fora um incômodo “hit” internacional. Se ouvir escondido, vai se sentir reprimido e com medo de que alguém do seu lado perceba e isso manche para sempre sua reputação. O que fazer? (...)”Ele cita hype sem mesmo escrever a palavra. Cheguei atrasado a “descoberta” de Amy Winehouse. Será que estou entrando na
modinha de gostar da música dela agora ou achei o
trabalho dela realmente bom? Será que o Zeca entrou na modinha do Bonde ou pra ele o Bonde é tudo isso? Será que meus amigos que gostam do White Stripes tiveram uma forcinha do hype por trás? No bom sentido da palavra, diga-se de passagem.
E tem como chegar numa conclusão definitiva sobre tudo isso? Não! Mas acredito que há como discernir boas bandas e bandas ruins, buscando entender como funciona esse hype tão poderoso que algumas possuem, sem entrar em conflito de gostos pessoais, apesar de ainda sentir que sempre haverá estas questões pessoais no caminho.

Minha idéia de hype poderoso é de uma bolha, que nesse caso, começa a crescer rapidamente e se torna um escudo forte que absorve tudo, qualquer tipo de crítica e que
vale mais do que a própria banda. Ou seja, se eu criticar quem possui o escudo do hype, posso ser taxado de um monte de coisa e pra ajudar, essa bolha toma mais forma ainda. Ela só vem a somar, tanto para o negativo quanto para o positivo. Diferentemente de algo que não possui a bolha do hype, pois esta quando recebe críticas negativas podem abalar seus alicerces e acabar com suas estruturas.
Já participei de uma palestra onde o famoso hype foi tema. Analisando com calma, você irá perceber que de repente, aquele produto que você consome tem mais nome do que qualidade. E aquele que você julga ruim, na verdade pode ser melhor. A diferença é que ele não tem o hype dos outros grandes. Quem disse que Skol desce redondo? Quem disse que a Coca-Cola é o melhor refrigerante do mundo? E que o Big Mac é o melhor lanche?
Não sei se as coisas ficaram mais claras. Tu pode achar que o que falei sobre
White Stripes, Amy Winehouse e Bonde do Rolê signifique meu gosto pessoal, mas posso afirmar que tentei ter um pouco de discernimento, algo que todo mundo tem.
Pra finalizar, no mesmo post do Zeca, ele acaba citando isso:
”(...) Sob pena de comprar alguns inimigos, segue aqui uma breve relação. Eu não gosto de “Senhor dos anéis”, nem de “Piratas do Caribe”. (...) Não gosto de Coldplay, nem de Kaiser Chiefs, nem de Interpol. (...)”Ao contrário, gosto de todos esses. Mas não posso ficar indignado se ele não curte
Coldplay, que pra mim é uma “senhora” banda. Nem posso falar que ele não entende nada de música, se isso significa o gosto pessoal dele. Até porque dos cinco citados por ele ao meu ver nunca possuíram um hype forçado pela mídia como White Stripes, Amy Winehouse e Bonde do Rolê, para o mal ou para o bem, acredito que andaram em cordas bambas para ser o que são, diferentemente de ser algo imposto.
Mas será que agora no final vou chegar a conclusão de que tudo se trata de
gosto pessoal e que o
hype que estou falando não existe? Não, não é possível. Ele existe, está na cara e todo mundo percebe, pois ele influencia de alguma forma. A diferença é que a maioria das pessoas
não admitem isso.
”Gosto é gosto, basta respeitar”. Mesmo sendo uma tarefa difícil alguma das vezes, pra todo mundo. Está na hora de parar de esconder ou fingir certas coisas, confesse, as vezes é difícil aceitar tal gosto de uma pessoa.
“Cada um, cada um” nunca foi o meu forte, aliás, nunca gostei dessa frase. Eu conheço pessoas que gostam de cada coisa que dá vontade de pegar a cabeça delas e bater na parede pra ver se acordam. Mas não posso, eu tenho que respeitar. Mas confesso, dá vontade!
Agora, admitir a
importância do hype e como ele cria
“gênios” e
“famosos” instantâneos hoje é digno de discussão. Parece que tudo está muito fácil, Bonde, White Stripes e Amy Winehouse são exemplos disso.
O fato é que, amando ou odiando, um dia o hype irá te pegar de novo, assim como já pegou você e pegou a mim, algumas vezes. Admita!
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