Culpa de quem? Do produtor pop Stuart Price? De Brandon Flowers, Dave Keuning, Ronnie Vannucci, Mark Stoermer? Pode até ser. Mas a palavra culpa não é a correta para expressar essa mudança, que só não chega a ser radical por ter algumas músicas que conseguem segurar a face indie da banda.
E geralmente a palavra “culpa” significa que algo deu errado, que alguém ou todos foram responsáveis por um desapontamento, por um deslize, algo assim. E Day & Age não desaponta.
Então vou abrir meu guarda-chuva para conter as pedras que poderão cair. O fato é que a máscara indie do The Killers caiu pela metade em Day & Age. Talvez até tenha caído por inteiro.
Mas há alguns resquícios de sua alma independente quando eles deixam o baixo falar mais alto e ditar o ritmo da brilhante Forget About What I Said. Incrível como ela tem a cara de Hot Fuss. Dá até a impressão que ela foi gravada há anos e esquecida numa gaveta. Disparada a melhor bônus track de todos os álbuns. Se fosse single então, com um clip contando a história da música, ela ganharia status de nova Mr. Brightside. Não é exagero. E infelizmente por ser bônus, talvez no final ela não tenha a atenção que deveria merecer.
Outro bônus track, A Crippling Blow, é mais a cara de Sam’s Town. Mas na minha opinião, ela poderia ter dado lugar a Tidal Wave, que saiu como bônus para quem comprasse o álbum pelo iTunes. Uma pena, ela é tão boa que se fizesse parte do corpo de 10 músicas que compõe a seleção principal, o álbum seria mais completo.
E é sobre essas 10 músicas que vou falar agora. São elas que fazem o novo The Killers. O The Killers pop que acaba de nascer. Queiram os fãs ou não.

O álbum começa com Losing Touch, que não é tão grandiosa quanto Sam’s Town para uma abertura de álbum, mas que faz por merecer, pois é uma das melhores do álbum. E também é o começo de uma transição para o pop. Está tudo bem definido, baixo e bateria aparecem em sintonia com o teclado e ainda tem metais ao fundo (sax, clarinete e trompete, por exemplo), característica que aparece também em outras músicas, como Joy Ride e I Can’t Stay.
A próxima é Human, que foi o primeiro single e que causou toda a polêmica envolvendo a frase “are we human or are we dancers?”. É filosófico demais para entendermos? É algo como “I’ve got soul, but I’m not a soldier”. Música também é arte, não devemos tentar entender tudo e tudo não precisa ter sentido para ser bom e cair em glória. All These Things That I’ve Done é exemplo disso, porque Human tem que ser diferente? Assim as coisas perdem a genialidade, não perdem? De qualquer forma, Human é viciante e também é a mais eletrônica da banda até hoje. Ela já nasce remixada, boa para pistas de dança. E também é a música que fará os desconhecidos se perguntarem: “que banda é essa?”.
Ao lado dela eu coloco Spaceman, que tem o típico vocal inicial que toda banda pop já colocou um dia no seu álbum: “oh, oh, oh” funciona bem para as massas, é fácil de acompanhar, a letra é razoável, mas a música tem um ritmo empolgante que também faz dançar. Grandes chances de virar single, apesar de não ser uma das minhas favoritas.
Depois é a vez de Joy Ride. A primeira vez que ouvi não agüentei e ri sozinho. Pensei: "não acredito que fizeram isso". É engraçada, dançante e sem compromisso. Lembra tema de filmes “B” da década de 80, que eram gravados nas praias de Miami, com gente de camiseta florida dançando numa cabana feita com folhas de coqueiros! Até no novo palco do show tem coqueiros, será que é por Joy Ride? Não sei, mas ela é um alívio para o álbum e nada mais. Música pra divertir, não é música para fã “sisudo” e de cara feia. É o The Killers querendo fazer todo mundo dançar.
Mas as coisas mudam um pouco a partir de A Dustland Fairytale. Eles ficam um pouco mais sérios com o conto de fadas caótico. É uma bela canção, com ares de Hot Fuss também, e ainda, tem violino ao fundo em certo momento da música. Não há como negar que em matéria de instrumentação, o novo álbum está cheio de novos experimentos. Só não devemos esquecer que isso no show será tudo criado no sintetizador, mas o resultado a torna mais grandiosa, com certeza.
A próxima, This is Your Life, é a mais experimental do álbum. Impossível não lembrar de certo filme, O Rei Leão, quando se ouve o vocal inicial dela. E só ouvindo com calma para entender que ela está longe de ser um erro. O baixo outra vez dita o ritmo, a guitarra quase desaparece e a bateria vem com uma marcha leve e ritmada do início ao fim. E a letra é uma das melhores do álbum.
Eu tentei gostar mais de I Can’t Stay, mas é outra que daria lugar fácil para Tidal Wave. Apesar do uso dos metais que me agradam, tem algo nela que não desce. É mais uma música em que o baixo fala mais alto que a guitarra. E com ela vemos que Dave Keuning realmente fica em segundo plano quase o álbum inteiro, pois não há um solo de guitarra explícito ou alguma parte que realmente demonstre o que ele representa para a banda, como vimos nos dois primeiros álbuns.
Por outro lado, Ronnie e Mark estão mais visíveis. Imagino que essa mudança possa ter sido até planejada, para que todos tivessem mais espaço e pudessem mostrar como são competentes. Mas fazer isso seria fácil, bastava incluir Where the White Boys Dance como música oficial de algum álbum. Não há outra música dos Killers tão competente quanto ela, quando se trata de instrumentação. Ela é perfeita e não canso de dizer isso.
E falando em música perfeita, chegamos a Neon Tiger. É agora que costuma chover pedras, mas meu guarda-chuva já está aberto, pode mandar.
Neon Tiger é um grito dos Killers. E isso seria a melhor definição para ela. Ela é grandiosa, é um chamado para os verdadeiros fãs e para aqueles que ainda estão vindo. É a melhor do álbum, a que tem mais potencial. Pelo que andei lendo, é ela que abre o novo show. Talvez para os próprios músicos ela seja a mais importante. Pra mim, é uma das melhores deles até hoje.
Em seguida, viajamos no tempo com The World We Live In, que é a mais oitentista da banda. Ela foi tirada de algum álbum do Simple Minds ou do Tears for Fears, não é possível. Como é bom ouvir hoje em dia uma música como ela, que faz relembrar bandas como essas! Cheguei a imaginar ela na voz do Roland Orzabal, vocal do Tears, e caiu como uma luva. Ótima música, clima melhor ainda. Os anos 80 foram generosos realmente.
Pra fechar, temos outra viagem. Goodnight, Travel Well tem uma abertura digna de The Dull Flame of Desire, do álbum Volta, da Björk. Ouso até falar que foi inspirado nele, pois é muito similar. Digamos que seja a música mais dark dos Killers, num álbum que é cheio de ritmos mais dançantes. Ela tem um ar de suspense, o que me fez lembrar Pionner to the Falls, do Interpol.
Mas só me fez lembrar pelo suspense mesmo, porque as duas são bem diferentes. Ela tem uma letra marcante, um final competente que pode até substituir All These Things That I’ve Done na despedida da banda nos shows.
E Goodnight, Travel Well consegue fechar com dignidade um álbum que não é perfeito, mas que tem suas virtudes.
E mesmo com suas virtudes, Day & Age deixa mais interrogações sobre o futuro da banda do que exclamações para a maioria dos fãs. Particularmente, eu penso que a partir desse álbum, não há mais volta para o lado indie da banda. São muitos ritmos novos, músicas que parecem ser tiradas do baú, muitas inovações e poucas que tentam manter a máscara na face. E só tem um fio segurando, pois ela está caindo. Isso é fato para quem ouviu o novo álbum. Álbum este que fará o The Killers crescer mais e mais. Ele foi criado para isso, dar um salto grande em busca das massas. Ele é pop, como foi previsto. E isso não vai agradar a todos, mas agradou a mim. Simplesmente por ser The Killers.
Na minha crítica sobre Sam’s Town, não cansei de dizer que o álbum foi uma bela evolução para a banda. Agora com Day & Age, a palavra é acrescentada por um “R” no começo. É a revolução da banda para com seu próprio estilo. É o The Killers se reinventando e também chamando os fãs para se reinventarem. Até porque, ser o mesmo sempre, é muito chato.

Ilustração: Headwires
Foto: Divulgação







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