Alan Moore tem razão.
Zack Snyder também tem razão. Escolha uma razão e se divirta. Simples. Ou não.

Watchmen - O Filme, tem uma peculiaridade: ele vende a idéia de
blockbuster, mas na verdade é um
cult. O editor Érico Borgo, do Omelete, cita muito bem a face do filme:
"Como a própria graphic novel, Watchmen - O Filme não é uma experiência para ser digerida de uma única vez. É o tipo de obra que exige amadurecimento e análise. Correndo o risco de parecer um vidente charlatão, acredito que estamos diante do Blade Runner de nosso tempo, um filme que será duramente criticado enquanto durar nas telas, mas que será reverenciado futuramente, quando a poeira assentar e o processamento das ideias ali contidas for esmiuçado em livros e artigos."O exemplo disso é o circuito que o filme está estreiando. Assisti o filme no Kinoplex Parque Dom Pedro, em Campinas: de 15 salas disponíveis, apenas 2 estão exibindo Watchmen. E logo na estréia, imaginamos que os ingressos iriam acabar rapidamente. No final, vimos que o cinema estava metade vazio. O que isso significa? Significa que é um filme feito de fã para fã. E o público entendeu isso.
Para acabar sendo redundante como todas as outras críticas: sim, é verdade, a atmosfera da HQ, os cenários, fotografia, ângulos, tudo foi realmente transportado para o filme. Mas o mais incrível são os personagens, esses sim estão perfeitos, com aplausos para
Rorschach. O mascarado perturbado é o melhor personagem do filme e claro, também da HQ.

Mas e as mudanças? Elas são perceptíveis para quem leu a HQ, óbvio. Então é agora que as dúvidas começam a pipocar na cabeça. No final, valeu a pena adaptar a história para o cinema? Sim. Mas...
Tem sempre um mas na história. No final da projeção você entende melhor porque Alan Moore não quis que sua obra-prima virasse filme. E você também entende melhor porque Zack Snyder quis.

Pensando como Alan Moore, Watchmen é mesmo "infilmável": são 12 capítulos que deixam de lado o traço para focar num roteiro brilhante, com diálogos inspiradíssimos e por vezes irretocáveis, apesar de, na minha opinião, ter um desfecho que deixa a desejar (explicarei melhor isso quando escrever diretamente sobre a graphic novel).
Pensando como Zack Snyder, Watchmen é um exemplo de convergência de mídia que dá certo: apesar de ser uma obra enxuta de algo até então "infilmável", ela consegue transmitir a idéia original sem deixar ponto sem nó.
Qual pensamento você escolhe? Isso depende da ordem dos fatores. No meu caso, tinha acabado de ler Watchmen um dia antes da estréia e ainda estava digerindo a HQ quando fui para o cinema. Após acabar a projeção, como que num estalo, pensei comigo mesmo: "Alan Moore é um gênio e Watchmen é mesmo a melhor história em quadrinhos de todos os tempos".
E graças a quem tive esse pensamento? Zack Snyder. Parece irônico?
Quando Zack Snyder se prontificou a fazer o filme, ele como fã sabia que seria impossível transportar o roteiro original para o cinema em apenas um filme. Então ele, juntamente com os roteiristas Alex Tse e David Hayter, decidiram (após certa pressão da Warner também) adaptar o roteiro para que a idéia original do universo dos Watchmen fosse transmitida, deixando de lado histórias paralelas, porém, não menos importantes. E mesmo assim eles foram muito competentes no final, desafiando a grande indústria do cinema, que estava disposta a transformar Watchmen em mais um filme banal de super-heróis.
Mas na diferença entre HQ e cinema, o que sobra no final é algo que ninguém tira de Watchmen e de Alan Moore, algo que não está no filme:
sua genialidade. Isso sim é infilmável mesmo. Com isso quero dizer que, apesar do esforço e da competência dos envolvidos no filme, falta nele uma pitada de Alan Moore.
Apesar disso, Watchmen vale a pena ser visto mais de uma vez. Mas eu garanto que vale mais a pena ler Watchmen, tendo seu próprio tempo para tentar entender o universo e as desgraças que acontecem no mundo caótico em que eles vivem. Até porque,
nossos mundos são os mesmos.
Foto: DivulgaçãoIlustração: Headwires